A VOLTA DE JEAN

Ainda tentando montar a estória que escrevi há algum tempo e que perdi os seus originais numa viagem, traço essas linhas para continuar os passos da personagem principal chamada Jean, dessa feita, voltando para a sua cidade natal. Os escritos passados relatavam a vida simples do jovem Jean numa cidade do interior, desde a sua juventude, passando pela sua iniciação amorosa, e a paixão explodida no seu primeiro encontro com uma mulher, acontecido num bordel na sua cidade. Depois, enfocando a sua vida como estudante, palhaço e profissional, ressaltando a sua busca permanente pela sua amada Valerie, após a sua partida do bordel para viver ao lado de um Engenheiro inglês. O presente texto começa quando Jean acordou da noite mágica no Bordel de Cajarana, acompanhado de pensamentos de resignação sobre a sua vida naquele momento. O impacto dos acontecimentos da noite passada lhe fez refletir sobre os seus sentimentos, a festa com o pessoal do circo não saia de sua cabeça, foram momentos de extrema felicidade. Ele repetia para si que era inútil viver aquela paixão por Valerie, pois sua vida estava sendo consumida pelos anos vividos entre a realidade e uma ilusão a empurrar-lhe a caminhos de tristeza e descontentamento. Uma permanente sensação de fracasso pesava-lhe sobre os ombros cansados daquela situação sem solução. Era hora de mudar de vida, Valerie deveria fazer parte do seu passado, pensava a todo instante. Nos dias seguintes, ele recordou da sua prima Maria, sua primeira paixão. Ele admitiu que ela poderia ser uma boa esposa, afinal, ela era uma pessoa que lhe conhecia e estaria satisfeita ao seu lado. Naquela mesma semana ele procurou sua prima pensando em retomar o namoro, todavia, para a sua surpresa ela já estava comprometida, iria se casar em breve. Mais uma vez ele errava com as mulheres, a escolha deveria ter sido feita muito antes. Ele simplesmente percebeu que havia desperdiçado uma boa chance de ser feliz. Naquela altura da vida, Maria havia se tornado uma bela mulher, ela não ficaria muito tempo só, matutava. A conversa entre os dois foi curta. Jean apenas disse que veio visitá-la, lembrou, timidamente, que ela foi sua primeira namorada. Após o mal fadado encontro, os dois se despediram e Jean saiu de lá com dois sentimentos, o primeiro de desolação e o outro de alívio, por querer se juntar a uma pessoa apenas por comodidade. A partir dali, ele viveria novos tempos, pensava insistentemente nessa ideia, como um mantra a estimular a sua vida. Era hora de assentar a vida na sua cidade natal. Jean, apesar de bem sucedido na capital, tinha um patrimônio para cuidar, a fazenda da sua família. A propriedade rural tinha algum gado, ovelhas e uma barragem de razoável tamanho. Também, havia muito espaço para a agricultura. Não era uma fazenda para lhe deixar rico, mas, com certeza lhe daria uma vida confortável. Outra possibilidade seria a de ser professor na escola da Cidade. Não seria uma profissão rentável, mas, lhe deixaria realizado por fazer algo de bom para os moradores da sua cidade. Pouco tempo depois, ele estava ensinando Biologia na escola municipal para alunos do ensino fundamental. Na fazenda, começou a realizar mudanças, aproveitando a abundância de água, entrando no ramo de criação de peixes e camarões. Para fugir um pouco da solidão, ele ia ao bordel de Cajarana e lá se divertia com a permanente festa ali instalada, apesar da forte lembrança de Valerie pairando no ar. O ambiente mágico daquele local com um conjunto decorativo esfuziante derramado nas suas paredes repletas de quadros realçando a boemia, pequenas mesas espalhadas pelo salão, somadas a uma iluminação colorida e fraca, música animadora, belas mulheres alegres e prontas para uma boa conversa e a dança, e, bebida farta a esquentar almas sedentas de prazer, levavam os seus frequentadores a momentos de êxtase, apagados somente pela realidade nua e crua enfrentada na saída daquele estabelecimento. O dono daquele negócio, seu amigo Cajarana, sempre lhe dava atenção e animava a sua estada com um bom papo. Jean lhe surpreendeu contando os seus planos para a sua fazenda e sua atuação na comunidade rural como professor. No seu trabalho na Escola, ele conheceu uma colega professora de Português chamada Telma, que logo lhe despertou um desejo de viver um novo amor. Ela iria ajudar a esquecer Valerie, apostava. Pouco tempo depois aconteceu uma visita inesperada. Um dos membros da Ordem Hermética, na qual ele pertencia, trouxe uma notícia impactante. Foi apresentada a possibilidade da construção de um templo na sua cidade. Os projetos apresentavam uma estrutura suntuosa. Jean agarrou a ideia e ofereceu um terreno para a sua construção. No mesmo dia, todos se dirigiram ao terreno indicado e o definiram como ponto da futura edificação. O local ficava numa colina com vista para um belo vale com um  riacho cortando a paisagem. As obras foram iniciadas, e, em algum tempo, o Templo foi concluído. Era um belo prédio de forma prismática com revestimento em granito claro, sustentando no centro da sua cobertura uma pirâmide de vidro servindo de iluminação do salão principal. O seu interior foi ricamente preenchido com salões, escritórios, auditório, bibliotecas e salas de reunião. Ali seria o futuro da Ordem Hermética, profetizou um dos seus superiores. Jean foi nomeado administrador do Templo e Mestre Regional. Sua missão foi a de manter o Templo e receber os seus membros de todo o mundo para realização de encontros. O templo era visto de qualquer lugar da pequena cidade e passou a ser um ponto turístico, atraindo visitantes de toda a região e do Estado. A pirâmide de vidro refletia os raios do sol conferindo a edificaçao um aspecto notável. O templo parecia movimentar-se quando visto por alguém que se deslocava pelas suas proximidades. O brilho da pirâmide e essa ilusão de movimento começaram a aguçar a imaginação dos moradores da cidade e das redondezas. Alguém afirmou que o templo levitou por algum tempo. No mais, foi o que consegui garimpar nas minhas lembranças da estória perdida da minha juventude. Ainda, espero poder contar a estória de Jean por minha criada há algum tempo, e, que certamente conterá a influência de tudo que já vivi.