UM NAVIO PARA CHRISTIANIA

Um navio partiu do Porto da Cidade, em direção ao desconhecido, levando moradores da Cidade Livre que foi criada nos anos sessenta. Esse navio aportou numa tarde e no dia seguinte, nas primeiras horas da manhã, já estava pronto para zarpar. A noite foi de intenso movimento no cais do Porto, quando não paravam de chegar pessoas, bagagens e outros pertences. O navio era de um bom porte e parecia poder levar muita carga. No seu mastro havia uma bandeira que simbolizava a paz, o conhecido pequeno triângulo dentro de um círculo. Aquele símbolo traduzia o ideal do movimento hippie, a construção de uma sociedade igualitária e alternativa. A partida desse navio coincidiu com o desmanche da Cidade Livre acontecida da noite para o dia, tirando do mapa uma experiência de vida alternativa que parecia estar dando certo na minha cidade. O movimento da partida do navio no início da manhã foi presenciado pelo menino Gurrel, morador das redondezas do porto, com dez anos de idade. O menino na sua inocência perguntou a um dos marujos para onde iria aquele navio. A resposta dada foi que ele navegaria para as terras mágicas de Christiania, explicando ser um local de muita paz, onde todos viviam igualmente. Pessoas do mundo, inclusive crianças, iriam viver ali a concretização da paz e da fraternidade hippie, concluiu. O marujo tirou do bolso um cartão postal contendo uma cena da comunidade de Christiania e deu ao menino. Gurrel agradeceu a gentileza e ainda perguntou quando aquele navio iria voltar. O marujo respondeu dizendo que ele voltaria quando houvesse alguém pronto para viver em Christiania. Encerrou a conversa dizendo que aquele navio levava moradores para aquela localidade numa viagem eterna. O marujo deu tchau e chegou ao navio por uma rampa de acesso. De lá de cima ele acenou para o garoto, que prontamente respondeu com o braço levantado agitando a sua pequena mão. A cena da partida do navio foi inesquecível. Muita gente cantava acompanhados por um som de tambores e palmas. Eram dezenas de vozes entoando uma melodia que falava de paz e amor. Aos poucos o navio foi lentamente se afastando do cais e seguiu seu caminho sobre as águas azul safira do Rio Grande. A música continuou sendo ouvida de longe, sumindo totalmente quando o navio adentrou o Oceano, até desaparecer completamente. O menino nunca esqueceu aquele momento e guardou o cartão postal. Nos dias seguintes, ele percebeu que a Cidade Livre havia desaparecido. As máquinas da municipalidade derrubaram o que havia e removeram os escombros. No lugar da Cidade Livre foi erguida uma praça que ficou conhecida como a Praça do Hippie. Gurrrel foi crescendo com a lembrança do navio para Christiania, como, também, nunca esqueceu as palavras a respeito da sua volta. Numa Enciclopédia conhecida da época ele ficou sabendo da existência de Christiania, inclusive, a sua localização. Para ele, um lugar inatingível. A partir dali, ele quis profundamente conhecer aquele local fantástico. A ida para Christiania seria naquele navio, pensava. Assim, quase que diariamente, Gurrel ia ao Porto verificar a presença dos navios. Passado os anos sessenta, Gurrel chegou a fase adulta e entrou na Faculdade. Naquela etapa da sua vida, ele usava cabelos e barba crescidos, e, roupas do tipo hippie, o que não  parecia estranho. Onde quer que ele fosse, falava sobre o ideal da Cidade Livre e da existência de Christiania. Naquele tempo, existia no pais um forte movimento, liderado por um artista conhecido, objetivando a criação de uma sociedade alternativa, ideia apoiada por Gurrel. Também, havia um grupo musical conhecido nacionalmente que vivia uma experiência nesse sentido. Todos os seus componentes moravam numa mesma casa e dividiam o dinheiro e os seus pertences. Apesar de frequentar todos os movimentos alternativos da cidade, Gurrel não encontrou eco para criar uma nova Cidade Livre. Ele até procurou um dos remanescentes da Cidade Livre local, chamado Seu Beleza. Aquela figura afirmou que participaria de qualquer experiência nesse sentido, no entanto, ele confessou que estava para partir a qualquer hora a fim de se juntar aos que se foram da Cidade Livre. Questionado como seria a viagem, ele contestou que não sabia como aconteceria, mas, esperava com muita fé. Ele tinha a intuição de que a sua ida seria junto com o reaparecimento e desaparecimento da Cidade Livre, acontecida de tempos em tempos na Praça do Hippie, como comentavam na época. Seu Beleza aconselhou a Gurrel a buscar a sua forma de se juntar aos que partiram. Seu Beleza passou a habitar a Praça do Hippie e Gurrel passou a praticamente morar no Porto da Cidade. Ele ali ficava por horas seguidas, passando a vender artesanato e pinturas para os turistas. De uma hora para outra, Gurrel sumiu do Porto. Um dos vigias noturnos comentou com amigos que um navio aportou por poucos momentos, e de lá desceu um marujo que acompanhou o desaparecido até o convés da embarcação. Imagina-se que a promessa feita há algum tempo atrás foi finalmente cumprida. Quem sabe numa visita a Christiania, eu possa encontrar Gurrel e saber como ele está.