UMA SEGUNDA LUA

Conheci o Professor Paulus quando era criança. Ele já era um Senhor de idade bem avançada e comentava que a terra tinha uma segunda lua. Aquilo para minha pessoa na forma de criança era uma ideia perfeitamente normal. Entretanto, os adultos riam e debochavam daquela opinião, já que se vivia no tempo da pós conquista a lua, publicações especializadas, estudos e fotos apontavam para um único satélite natural. A casa do Professor Paulus ficava numa praia próxima a cidade em que eu morava. Era uma praia de veraneio e as famílias lá passavam aquela estação. As observações que fizeram o Professor chegar a esta inusitada descoberta vieram do seu telescópio instalado numa torre construída sobre o telhado da sua casa. O projeto daquela edificação era muito interessante. O seu telhado era de estilo colonial e a torre saia do centro da casa e parecia projetar-se ao infinito. A torre era coberta por telhas estilo quatro águas dando aquela construção o aspecto de um foguete. Como a casa ficava no alto de uma rua, podia-se imaginar na parte baixa uma decolagem para a lua. Nas noites de lua cheia se formava uma imagem espetacular e misteriosa, era como se a lua capturasse a torre para o seu centro. Numa noite o Professor Paulus convidou alguns amigos para conhecerem a segunda lua a partir do seu telescópio. Assim, eu fui convidado por meu pai para ir ao observatório ver a outra lua. Para mim aquilo seria uma oportunidade de poder usar um telescópio, era um sonho fantástico a ser realizado. Na verdade, apenas alguns dos convidados compareceram ao observatório. Lá estavam, eu, meu pai e dois senhores de idade. Um deles de cabelos crescidos e o outro mais baixo, quase calvo e usando um par de óculos fundo de garrafa. Adentramos à casa todos de uma vez. Subimos numa escada até a cobertura. De lá chegamos ao observatório por meio de uma outra escada bem íngreme com corrimões para apoiar a subida. Quando chegamos ao misterioso recinto o Professor deu uma aula sobre o surgimento da nossa lua. Depois, explicou que todas as formações que víamos a olho nu eram do relevo da sua superfície. Imensas crateras se formaram devido ao choque com meteoros, destacou. Após a aula, apontou para uma pequena estrela ao lado da lua e disse que aquela era a nossa segunda lua. O senhor calvo, disse que aquela luminosidade podia ser qualquer astro, inclusive, Vênus. O Professor rebateu falando que a sua lua era um pequeno astro do espaço capturado pela gravidade da terra, estando no campo gravitacional terreno há alguns meses, e, naquele momento estava no seu ponto mais próximo à terra. O professor pediu que olhássemos a sua lua pelo telescópio. O primeiro a observar foi o senhor de cabelos brancos longos, seguido pelo Senhor calvo, depois foi meu pai e por fim fui eu. Pude observar um objeto oval muito brilhante, apesar da sua proximidade com a lua cheia. O seu brilho não foi ofuscado pelo astro maior, podendo-se perceber o seu movimento com o de um bumerangue girando em torno do próprio eixo. O Senhor de cabelos brancos comentou que podia ser um meteoro. O Professor Paulus insistiu que realmente era uma lua com uma órbita elipsoidal que a distanciava da terra, deixando-a muito distante a maior parte do tempo, fazendo-a parecer um corpo celeste perdido.  Para a minha surpresa o senhor de cabelos brancos tirou do seu bolso uma varinha de madeira e começou a falar palavras repetidas num idioma desconhecido. O senhor calvo fechou a mão destacando um anel esverdeado que começou a lançar uma luz muito fina em direção a segunda lua. Após esse raio luminoso, a lua começou a crescer de modo que a sua luz passou a iluminar o ambiente. O calor passou a ser insuportável. Eu e meu pai não tivemos tempo para reagir até que houve barulho seco seguido de uma grande explosão luminosa. Depois tudo voltou ao normal. Depois desse fenômeno seguiu-se uma forte queima de fogos de artifício que pareceu explicar aquela situação. Era uma festa religiosa que acontecia anualmente naquela praia. Ficamos a olhar a queima de fogos que durou mais alguns minutos. Depois, nos despedimos e o professor Paulus agradeceu pela visita. Todos agradeceram o convite, no entanto, o Senhor de cabelos brancos se despediu dizendo que não estava convencido de que se tratava de uma segunda lua. Como resposta o Professor nos convidou para uma outra seção com o objetivo de observar os planetas do sistema solar. É uma pena que nunca houve esta segunda visita. O professor se mudou para outro estado e nunca mais se ouviu falar daquela pessoa. O que mantém esta estória viva é a torre de observação que continua em pé. Às vezes faço um passeio nostálgico por aquela praia e vou obervar a torre e lembrar os meus tempos de infância. O intrigante de todo esse episódio é que meu pai nunca comentou nada sobre o acontecido. É como se não tivesse acontecido coisa alguma. Ele só se lembrava da visita. Às vezes acho que foi a minha imaginação. Outro dia li numa revista cientifica que naquele momento a terra tinha duas luas, ou seja, havia um asteroide fisgado pela terra, e segundo a explicação, esse corpo celeste geralmente dá três voltas irregulares em cerca de nove meses até que volta para o seu caminho próprio. Será que esta lua era aquela do Professor Paulus, quem sabe.