ESPELHO MEU

Os espelhos foram criados para que possamos nos ver, mas os seus usos são mais amplos, por exemplo, o de aumentar o espaço interno de uma casa, sendo um artifício de arquitetos em decorações. Dizem que os espelhos são uma porta para energias de todos os tipos, desde as positivas como as negativas. Soube que algumas culturas usam um pequeno espelho na entrada da casa para afastar as energias negativas. Usa-se o espelho para adivinhações, olhando-o num ambiente escuro iluminado por uma vela de cor índigo, para obter-se respostas. E mais ainda fala-se do espelho como a nossa consciência, pois, nada pode ser escondido, a não ser o nosso reflexo, ou seja, nós mesmos. Entretanto, o que me leva a essa inquietação com esses objetos é o meu próprio reflexo. Vejo-o de maneira diferente em todos os espelhos aos quais me deparo. O do meu banheiro me dá uma aparência de uma pessoa tranqüila, com um rosto simétrico e bem tratado. Já o espelho do elevador me apresenta diferente. Minhas características físicas mudam um pouco, fico mais carrancudo, e um aspecto triste, dentre outros exemplos. Pensei que fosse um problema de reflexão, deve haver formas diferentes de fabricar-se um espelho, quem sabe não há deformações que mudam qualquer imagem. Nos reflexos podemos nos ver de modo diferente do que somos, e, aí, podemos ver imagens escondidas do nosso eu. É sempre muito bom, quando olho para uma poça de água e me enxergo alto, magro, gordo, feio, bonito, alegre ou triste. É uma sensação que equivale a uma análise de como nos vemos nesta dimensão material munidos deste corpo físico. Para mim é uma terapia indescritível. Posso até mesmo ver como era no passado e idealizar minha imagem no futuro. Também me veio à mente as fotografias que nos mostram com muitas faces, desde as mais belas, as mais bizarras. É o mistério do espelho, decantado há séculos como um objeto de ligação entre dimensões ou de predições do futuro, o que dizer? Existem espelhos que nos isolam do mundo, mostrando apenas a nossa imagem refletida, todavia, esses nos mostram por inteiro para quem está por trás deles. Esta é uma situação que pode ser comparada à condição humana. Talvez só possamos ver o que está refletido no nosso espectro de conhecimentos, mas, existe algo que nos enxerga por completo. Será que esse ser maior pode nos dar respostas para os nossos anseios mais íntimos. Vem-me a cabeça o conto onde se fala no espelho mágico, será que no espelho habita uma entidade que não é governada por nossas leis naturais, tempo, espaço, velocidade, etc. E quando um espelho se quebra. Diz-se que dá muito azar. Assim, é melhor não quebrar um espelho. Talvez essa crença tenha surgido em função de tudo que está ligado ao espelho, desde a sua importância como artefato doméstico, a sua fragilidade e a sua condição esotérica. O que é realmente um espelho para uma pessoa que passeia entre os limites do crível e da fantasia como eu.  Assim, resolvi passar pelos mistérios do espelho e fazer a minha experiência mística. Com base em conhecimentos prévios, iniciei uma seção de exploração do espelho. Montei o meu cenário de pesquisa, acendendo uma vela azul e apagando as luzes. Apanhei um espelho quadrado com um cabo e comecei a olhar a imagem ali refletida. Vi muitas manchas indefinidas e um formato de rosto, muito escuro, se movimentado devido ao balanço da vela. Fiquei naquela posição alguns minutos e não aconteceu nada que pudesse me dar alguma resposta. Procurei ir ao passado e apenas relembrei fatos acontecidos. Procurei buscar o futuro e me vi no espelho com um rosto indefinido. Uma imagem que se movimentava até que tomou completamente o espelho, não havendo mais espaço para qualquer silhueta. Tudo ficou escuro. Fiquei apavorado com aquela situação e acendi a luz. O espelho com a luz acesa voltou a refletir a minha imagem normal. Naquela hora eu estava com aspecto daqueles que só alguns espelhos conseguem apresentar. Algum tempo depois, tive uma lição de vida onde aprendi que os espelhos são nós mesmos. Neles podemos apenas nos ver e quem sabe não tiramos proveito disso, observando na nossa imagem o nosso comportamento e o nosso crescimento espiritual. Conclui que, ao me ver bem em certos espelhos, eu realmente estava bem de corpo e de alma, quando a imagem não era boa, era sinal de que eu não estava bem. Quem sabe mais na frente eu não escreva mais sobre os espelhos e seus mistérios.  Numa segunda tentativa de olhar um espelho num quarto iluminado por uma vela, procurei observar o que se passava na imagem refletida por trás de mim. Dessa vez passei a observar cenas de uma cidade com casas, pessoas, animais, nuvens, etc. Para registrar aquelas imagens fotografei o espelho. Observando a foto pude ver a figura de uma pessoa de perfil esguio segurando uma lança. Foi incrível, perceber no jogo de imagens e sombras capturadas pela fotografia digital, a figura de um guerreiro. Farei outras experiências e quem sabe não as descrevo num relato futuro.