O ANJO ESCRITOR

Ao vislumbrar a estátua de um anjo numa praça pública da Cidade, lembrei de um poeta que conheci, e, acredito que ele era um desses seres, pois imagino que vi com meus próprios olhos ele se transformando num ser alado. Ele se chamava Luiz, e era escritor, contava estórias do cotidiano e contos que ele chamava de fantásticos. Era uma leitura maravilhosa, mas ele se dava ao luxo de publicar pequenas edições, aliás, há muitos anos atrás. Seus livros hoje estão disponíveis em sebos ou em algumas estantes privilegiadas. O fato que me levou a conhecer o Luiz foi a leitura de um conto que descrevia a criação do universo e todas as forças ali emanadas, a partir de uma grande explosão da partícula primordial. O seu escrito descrevia aquela partícula como adimensional, podia ser do tamanho de um átomo ou de um tamanho inimaginável, também não tinha peso, não era sólido, nem líquido, nem gasoso. Desta grande explosão surgiu tudo o que existe no universo: matéria, vazio, ondas, temperatura e inteligências. Toda esta sopa de criação se espalhou e foi aos poucos se estabilizando com a criação de galáxias com sóis, planetas, cometas, asteroides, etc. As inteligências precisavam se apoiar em alguma coisa, pois vagavam pelo universo numa grande confusão cósmica. Num determinado ponto, surgiram os seres vivos e todas as inteligências afloradas foram se encaixando de acordo com a sua vibração. As mais poderosas se encaixaram em dimensões superiores e formaram os seres angelicais. A inteligência suprema passou a criar e dirigir todo o universo. Essa estória me deixou arrepiado e com muita vontade de conhecer o seu autor. Numa feira de livros eu vim a conhecer o mestre Luiz. Inicialmente me apresentei e falei sobre o conto que havia lido. Para a minha surpresa, ele respondeu que aquilo tudo era uma grande besteira, era um conto de amador. Aquela resposta me deixou estupefato, pensei inicialmente que era falsa modéstia, entretanto o tom da sua voz me convenceu da sua sinceridade. O início da descoberta de um ser angelical se iniciou quando ele recitou numa conferência para estudantes do Curso de Letras uma poesia  que relatava a condição humana, e assim dizia: céus azuis infinitos para voar/nuvens de castelos para morar/chão para o peso humano suportar/asas para a liberdade, jubilar/por hora vou apenas sonhar/não sei quando viajar/o meu voo um dia chegará/tudo que deixarei haverá de germinar/na terra dos homens a procurar/ a felicidade dos superiores para gozar/ Senhor, dá-me forças para alcançar / o meu lugar. Toda a audiência aplaudiu o belo poema, no entanto, acho que ele não foi entendido. Após a sessão cultural, procurei-lhe e questionei a respeito do poema. Ele me respondeu que eram inquietações da sua alma, e, que sua partida estava próxima. Ele pediu licença e se retirou. Pude observar aquele senhor adentrando a terceira idade caminhar lentamente, até ser ofuscado por um raio de luz que me fez ver um par de asas saindo da atura dos seus ombros, limpei os olhos e não vi mais ninguém. No dia seguinte, soube da morte súbita do amigo poeta. Foi uma tristeza. Numa crônica local li um texto que falava do poeta Luiz e assim terminava: ele era um anjo e escondia firmemente as suas asas.