NEVE NAS DUNAS

O menino Manito sonhava em praticar surf ao ver as grandes ondas da Praia dos Farristas, pedaço de mar frequentado por surfistas devido as grandes ondas ali formadas. Ele ficava na beira da praia observando os surfistas a fazer manobras espetaculares enquanto os banhistas ficavam na espuma aproveitando as águas já menos agitadas. Quando os surfistas se reuniam, ele ficava por perto ouvindo as conversas e, a partir disso, aprendeu a linguagem do surf. Sabia o que era batida, tubo, drop, dentre outros termos da galera. Mais tarde, ele se juntava com os amigos da rua para contar o que aconteceu no dia e vibrava falando sobre o tubo ou algo interessante que tinha observado. Foi muito massa, dizia. Esse tempo que descrevo está situado num passado já distante, um tempo onde as coisas eram mais difíceis, por exemplo, uma prancha de surf era um artigo muito caro. Ela vinha de grandes centros do país e era um esporte praticado por uma minoria de privilegiados. Nos sábados e domingos, a meninada, da rua na qual cresci, partia de um bairro central da cidade à pé em direção à praia. Era uma caminhada de uma meia hora debaixo de um sol escaldante. No caminho, eles se encontravam com várias pessoas e paravam para conversar um pouco. O grupo que me acompanhava quase sempre nessa pequena viagem, era formado por Will, Lulu, os irmãos gêmeos Zé e Joca e Manito. Os meninos levavam debaixo do braço os equipamentos de praia de baixo custo. Estes se resumiam a dois: uma tábua de deslizar na areia e uma prancha de isopor quebrada. Todos nós tínhamos cerca de dez anos e éramos ainda muito pequenos. Manito era o melhor atleta nas modalidades praticadas. A sua prancha de deslizar na areia sobre a água das ondas foi feita por ele mesmo com a ajuda do seu pai. Era uma fina tábua de madeira lisa com as pontas ovaladas. Esse esporte é hoje chamado de skimboard. Manito, com muita habilidade segurava a prancha com a parte de cima virada para ele, com uma mão na traseira e a outra na parte de baixo próxima ao bico, ele esperava até uma onda vir e começar o movimento de volta. Quando uma fina camada de água permanecia sobre a areia, ele corria e se jogava em cima da prancha e deslizava em pé sobre a água por alguns metros, conseguindo fazer alguns malabarismos nas ondas. Era bonito de ver aquele pequeno show. Eu não tinha a mínima habilidade para aquele movimento, sempre caia antes da prancha tomar velocidade. A prancha de isopor era usada para descer nas ondas. Nós, também nos divertíamos pegando o famoso jacaré, o surf de peito. Era fantástico ver os meninos se equilibrando em pé na prancha de isopor. Era uma façanha admirada até pelos surfistas mais experientes. No começo da tarde era hora de voltar para casa. No caminho de volta, era a hora da resenha do dia. O papo rolava se falando sobre as descidas nas ondas gigantes e dos movimentos na fina lâmina de água. O show dos surfistas era parte da conversa, cada um relatava o que lhe chamou mais a atenção. Nas férias de janeiro toda a turma ia veranear na Praia da Pontinha, um local encantador, pois, além do rio com suas águas calmas e a chamada costa com mar aberto, havia o local para a prática do surf de tábua de morro nas gigantescas dunas. Havia um local especial nas margens de uma lagoa, onde montes de areia se derramavam na água. Para surfar nas dunas, eram carregadas as tábuas de morro. O caminho até lá era demorado, sendo o trajeto logo vencido com muita conversa fiada. A tábua de morro usada pelo pessoal era de madeira abaulada com umas barras de madeira lisa nas pontas, feita de maneira artesanal. Na parte inferior da tábua era passada vela para facilitar o deslizamento na areia. Os gêmeos Zé e Joca davam um show nas dunas realizando manobras espetaculares, sacudindo areia ao vento nos movimentos bruscos após descerem na diagonal da duna. Lembro do descomunal exercício de descer e subir as dunas gigantes. Na volta para casa alguém comentou sobre o sky na neve que era um tipo de surf. Na prática, ninguém sabia o que era neve, havia uma vaga ideia observada em livros, revistas e filmes. Numa das dunas da praia da Pontinha havia a junção de duas árvores empurradas pelo vento. Os troncos se juntaram e formaram uma imagem fantasmagórica de uma árvore com uma abertura de uns dois metros de altura por baixo deles. Will disse ao pessoal que aquela árvore era mágica e realizava o desejo de quem passasse pela abertura e ali pedisse alguma coisa. Numa das idas às dunas, a turma foi conhecer a famosa árvore misteriosa. Todos, passaram pela abertura e cada um fez o seu pedido. Quando eles se preparavam para seguir para as dunas, o céu começou a ficar fechado com nuvens pesadas. Surpreendentemente, naquele momento, começou a cair neve, uma grande surpresa. A nevasca durou uns dez minutos até o céu ficar claro. Todos correram em direção as dunas e perceberam que elas estavam nevadas. Munidos com as suas tábuas de morro fizeram descidas espetaculares. No entanto, a festa durou pouco tempo, pois, o sol logo derreteu tudo. Na volta para casa os meninos contaram aos seus pais o acontecido. Os adultos não acreditaram naquela estória. O estranho, é que não houve qualquer registro daquele acontecimento e não houve outras testemunhas. Em novos passeios à árvore mágica foram feitos novos pedidos para cair neve nas dunas, fato que não voltou a ocorrer. Esse assunto perdurou por anos, até ser deixado de lado, pois a vida adulta não permitia episódios daquela natureza.