UMA LENTE DE ÁGUA

Lembro com muita alegria de uma época de pré adolescência quando adentrei num universo da projeção de imagens na parede. Foi um momento fantástico. Com base num desenho de projetor de filmes que vi numa revista, imaginei que poderia gerar imagens a partir de uma fonte de luz e  uma lente de aumento. Aí iniciei a minha construção mágica. Arranjei um fio, um bocal, uma tomada, uma lata de leite e montei a fonte de luz. A lente para a projeção foi uma lâmpada incandescente transparente a qual enchi de água. Criei, assim, um artefato que funcionava maravilhosamente. Uma caixa de papelão foi o invólucro para criar um equipamento de projeção que iria apresentar imagens espetaculares. Com a prática ajustei o local exato entre a fonte de luz e a lente de aumento, e, criei com uma caixinha de papelão um dispositivo para apoiar a imagem a ser projetada. O papel manteiga era a base para a realização dos desenhos a serem projetados. Desenhei muitos motivos em pequenos pedaços de papel manteiga, desde  personagens de quadrinhos a paisagens de mar, montanha, estrelas, etc. O próximo passo foi buscar no lixo dos cinemas locais pedaços de filmes ali dispensados. Bati todos os cinemas da minha cidade e apanhei um bom material. Com uma caixa de pasta de dentes criei um dispositivo para encaixar as imagens da película cinematográfica. Foi um passo assombroso. As primeiras imagens eram de uma clareza maravilhosa. Passava horas vendo aqueles pedaços de ilusão. Eram cenas de filmes mostrando cidades, paisagens diversas, belas mulheres, cidades, automóveis. Também, havia quadros de desenhos animados. Muitos deles da Disney. Um dia encontrei um pedaço de película com mais de um metro e pude analisar as imagens quadro a quadro. Pude perceber as pequenas diferenças entre as imagens e entender a ideia de movimento do cinema. Passei a projetar as imagens para a meninada da rua em que morava e o sucesso foi enorme. Depois de algum tempo cobrei uma entrada para quem quisesse assistir as projeções. Nas seções eu criava uma estorinha para os quadros projetados. Tinha policia, bandido, romances, perseguições e um final surpreendente aos moldes do happy end dos filmes da época. O domingo era dia de ver os filmes de verdade. Eu assistia de tudo, filmes de guerra, faroestes, romances, comédias, ou tudo o que fosse permitido para a minha idade. Costumava ir ao Cine Old, de cuja tela podia vislumbrar o que poderia projetar na minha parede. No final da seção ia até o lixo e recolhia pedaços da sétima arte que havia acabado de assistir e as projetava assim que podia. Um dia para a minha surpresa vi o meu equipamento jogado no lixo. Uma empregada nova achou que aquela parafernália era lixo e jogou o equipamento fora. Fiquei desesperado e tentei recupará-lo, mas não havia mais nada. Meu sonho havia sido destruído e só me restava as películas as quais guardava numa caixa de madeira. Ainda bem que sobrou aquilo. Uma tristeza tomou conta e resolvi acabar com aquela fase da minha vida. Dei a minha caixinha a um amigo mais novo que se encantava com as projeções que eu fazia. Pouco tempo depois ele criou o seu equipamento e passou a projetar as películas e desenhos no papel manteiga. Esse amigo se tornou um cineasta e hoje mora num grande centro do país trabalhando com cinema. Numa visita a sua casa ele me mostrou a caixa com as películas que lhe dei e me fez uma grande surpresa. Ele me mostrou o seu artefato de infância e passou a projetar as películas na parede. Pude ver aquilo tudo e revivi uma época da minha vida. Numa apresentação de uma estorinha criada por ele percebi que o enredo era o que aconteceu com a gente. A partir de um presente dado por um amigo aconteceu o surgimento de uma vocação para o cinema. O mais surpreendente é que pude me ver nas imagens projetadas quando menino e todos os frequentadores das minhas projeções. Perguntei como ele havia conseguido aquelas imagens e soube que elas simplesmente estavam na caixinha. No decorrer do nosso encontro ele falou que estava escrevendo um roteiro para um filme com o título: Uma lente de água, e, que quando estivesse pronto iria mandar para que eu desse uma olhada. Nos despedimos e encerrei o encontro dizendo que estava ansioso para ver o seu filme. Quem sabe não vou me ver na tela e voltar no tempo em que me aventurei como criador de uma fantasia registrada num quadro de um filme que só existe para sonhadores como eu e meu amigo cineasta.