O DIA DOS BONECOS

O dia internacional dos bonecos se aproximava e deixou o criador de bonecos e líder da Companhia de Teatro de fantoches, Mestre Valdo, ansioso para fazer alguma comemoração em alusão àquela data de grande importância para o seu universo pessoal. A ideia foi de realizar um grande festival na Cidade com bonecos do mundo inteiro com apresentações de grupos de fantoches, ventríloquos, marionetes, etc. Assim, começaram os contatos com os artistas da arte dos bonecos. A municipalidade aprovou a ideia, principalmente, devido a tradição da cidade na arte dos mamulengos, tão bem traduzidos nos grupos locais denominados de João Redondo. O Senhor Lucho soube da novidade e se incorporou ao movimento dizendo que apresentaria suas criações naquele evento. O dia internacional de bonecos seria na sua data comemorativa, 21 de março. O local para a montagem do I Festival Internacional de Bonecos seria o largo da Ribeira, local onde acontecem momentos culturais na Cidade, como festivais de música e literatura. Aos poucos a estrutura do Festival de Bonecos foi montada, havia um auditório maior para apresentação de palestras, debates e espetáculos. O grande folclorista Adriano Araruna confirmou a sua presença para falar da arte popular dos bonecos. Foram montadas tendas temáticas para abrigar as diversas expressões da arte dos bonecos. Finalmente chegou o dia 21 de março e se iniciou logo pela manhã o esperado Festival. Lucho montou uma tenda onde apresentou toda a sua arte com os bonecos. Lá estavam o boneco Gapato, o trapezista Joca Bravo e o sensacional Gepa, além de outras criações a serem apresentadas como fantoches para a apresentação daquela arte, destacavam-se os gatos Ploc e Bob, a cadelinha Nina, e uma senhorinha chamada Zazá e sua furiosa bengala. De Portugal vieram os mestres Jalecó e Caminhos com as suas marionetes de varão, bonecos de quase quarenta centímetros de altura manipulados por cima. Esses bonecos atuavam num palco de madeira com cenário em papel cartão, as personagens eram camponeses adultos e crianças. A tenda Sonho Real comandada por Valdo apresentava fantoches manipulados pela mão atuando em esquetes com episódios de humor. Da localidade havia a tenda do João Redondo onde os mamulengueiros faziam apresentações versando sobre assuntos do cotidiano, entre eles a desigualdade social, preconceito, dentre outros temas, sempre com a tônica do bom humor. As tendas estavam todas lotadas, principalmente, por estudantes que apreciavam os espetáculos. O folclorista e artista popular Adriano Araruna na sua palestra falou sobre a importância do teatro de bonecos na formação da cultura do país, quando estes eram a forma popular de comunicação e de divulgação do teatro para o povo. Ele ressaltou que os primeiros colonizadores usavam daquela arte para representar peças de grandes autores de teatro, como também, de informar a respeito de questões de ordem política e social. No final da tarde o evento seria encerrado com uma caminhada dos artistas e bonecos saindo do largo da Ribeira até a Praça da Matriz, onde haveria uma apresentação da orquestra sinfônica apresentando clássicos da música nacional e internacional. Os artistas apanharam os seus bonecos de acordo com o seus tipos. As marionetes eram penduradas pelos seus manipuladores, os fantoches encaixados nas mãos, alguns foram levados pendurados pelos braços, outros apoiados em varões e, ainda, carregados nos ombros. Os frequentadores das tendas foram convidados a levar os que sobraram. Valdo foi ao centro do largo da Ribeira e com um microfone em mãos agradeceu a todos pela participação e disse que a cidade estava mais rica, a cultura popular ocupou um espaço há muito tomado por muitas mídias, e encerrou conclamando a todos para a caminhada até a praça da Matriz. Ao som de fogos de artifício, o pessoal ali presente iniciou a caminhada pelas ruas da cidade. O sol rapidamente baixou dando lugar a uma bela lua cheia que aos poucos foi se elevando e iluminando a noite. No caminho os moradores iam se juntando ao cortejo animado por uma bandinha com instrumentos de sopro tocando belas músicas. Aos poucos alguns dos bonecos foram tomando vida e se soltaram dos seus artistas e passaram a dançar vigorosamente. Logo depois  todos chegaram à Praça da Matriz onde se iniciou a orquestra sinfônica tocando o melhor da música clássica. Os bonecos animados pela magia daquele acontecimento dançavam como podiam. Algumas bonecas bailarinas chegavam a executar passos do ballet numa coreografia espetacular. O encerramento da apresentação da orquestra foi o Bolero de Ravel. No final da execução daquele clássico, a animação das dezenas de bonecos foi interrompida, e todos eles voltaram a sua forma original. O encantamento de todos com o evento era tanto, que os bonecos com vida própria passaram despercebidos, tudo era só alegria. Valdo realizou um antigo sonho de divulgar a arte dos bonecos e já pensou em realizar futuros movimentos nessa direção. Lucho terminou o dia levando os seus bonecos para a relojoaria. Foi um dia inesquecível, comentou Gepa num rápido movimento de animação. Os jornais do dia seguinte falaram do sucesso do evento e da incrível participação que se misturou a uma fantasia inenarrável vivida por quem participou daquele encontro movido pela paixão dos criadores dos bonecos que lhes dão uma dimensão que transcende o real através da arte que transgride todas as barreiras da racionalidade.