A LENDA DAS DUNAS

As dunas me exercem um fascínio especial. Vejo aqueles lençóis de areia espalhadas por uma vastidão de terra dominando o cenário, sem grama, árvores, animais e qualquer vida. Vejo na praia as dunas atingirem o mar e o maior mistério é que elas permanecem intactas ao longo dos anos, talvez, o lógico é que elas fossem se desmanchando e diminuindo. Seu Dantas, um pescador daqui da praia em que resido me contou uma lenda que explicava a origem das dunas através de uma maldição passada pelos seus antepassados índios. Ele narrou que as dunas eram jardins maravilhosos que beiravam o mar, locais com muita chuva, temperatura amena, florestas, animais e fontes de água onde habitava uma tribo de índios que tinha como Deuses o Sol, a Lua e mãe natureza. A tribo vivia em plena paz e liderava as tribos indígenas da região que mantinham com ela uma espécie de pacto de não agressão. O nome da tribo indígena moradora da dunas era Mordeque e sua etnia era um pouco diferente das demais. Eles tinham uma cabeça maior e era mais altos, entretanto, a estrutura física era inferior, sendo estes mais magros, pois a sua dieta era baseada na alimentação de raízes, frutas e peixes. No entanto, eram mais espertos, e nos poucos combates em que pelejaram foram vitoriosos, centrando sua tática de guerra em armadilhas e ferimentos leves que deixavam os oponentes momentaneamente desequilibrados, usando extratos de ervas e plantas em dardos lançados por zarabatanas. Todavia, um dia chegaram os colonizadores europeus, e, a partir de então, começou a derrocada da tribo Mordeque. O primeiro acontecimento após o contacto com os estranhos invasores foi uma doença que dizimou boa parte da população. O Pajé chamado Sol Nascente se retirou para um encontro com o Deus Sol para aconselhar-se sobre aquela situação. Após esse encontro realizado no topo do morro da coruja, o local mais elevado da região, a instrução dada pelo Deus Sol foi o uso de uma arma milenar guardada numa caverna marinha da região. A arma era um artefato que teria o poder de dizimar com todos os invasores. Assim aconteceu, o Pajé mergulhou na maré seca num local da praia onde havia muitas pedras e foi buscar a arma. Seguindo as orientações o Pajé apanhou uma lança com uma ponta dourada e a trouxe à superfície. Depois foi marcado uma conversa com os europeus invasores. No encontro foi comunicado aos intrusos que estes deveriam ir embora daquela região a fim de acabar com os problemas que surgiram após a sua chegada. Como resposta o representante dos invasores, um tal de Comandante Zota, informou que não sairia de lá e que a partir daquele dia toda a área pertencente a tribo Mordeque pertenceria ao seu País. O Pajé Sol Nascente ordenou que em dois dias não queria ver mais qualquer estranho nas suas terras sob pena de iniciar uma peleja com terríveis resultados para os oponentes. O Comandante se retirou a cavalo junto com a sua comitiva. Algum tempo se passou, e, num dia de muito sol, apareceram muitos soldados. Boa parte deles a cavalo e outra parte a pé. Eles estavam fortemente armados e iniciaram o ataque a tribo, que foi pega de surpresa. De repente apareceu do céu uma nuvem de cor alaranjada que recolheu todos os membros da tribo. O exército invasor ficou surpreso com o acontecimento e continuou a destruir tudo pela frente. Assim, cabanas, ocas, criações de animais e plantações foram incendiados pela fúria incontrolável dos invasores. Nesse meio tempo aconteceu um forte estrondo e ao mesmo tempo o Pajé apareceu suspenso no ar portando a sua lança. Sua voz ecoou fortemente com os dizeres: a partir de hoje estas terras não terão mais paz. É nosso destino partir para as estrelas. Como herança deixo a aridez. Depois foi lançado de sua lança um raio que provocou uma forte explosão em toda a área pertencente a tribo Mordeque, seguida por um fogo que atingiu dezenas de metros de altura. Apenas os invasores que estavam em barcos sobreviveram e de lá imediatamente fugiram. No lugar das terras dos Mordeque surgiram dunas cumprindo a maldição do Pajé.