UM TREM SOBRE AS ÁGUAS

No meio da rua passavam trilhos de trem que vinham não sei de onde. Os trilhos terminavam numa parede e entravam num galpão abandonado. Por curiosidade, entrei naquela edificação e vislumbrei uma estrutura circular chamada rotunda possibilitando um caminho sobre trilhos para uma locomotiva ou vagão estacionar num espaço do galpão para guarda ou reparos. Aquela construção tinha o formato de semicírculo e na sua frente estava a rotunda com um trilho giratório que podia se alinhar com vários trilhos dispostos no seu espaço interno. Num dos trilhos havia uma locomotiva antiga parada, mágica e pronta para sair dali e alcançar as mais distantes cidades do planeta e talvez outros lugares inimagináveis. Resolvi explorar aquela bela construção antiga e constatei que era o local onde funcionou a empresa férrea do Estado há muito tempo. Hoje ela é um pedaço do passado guardando a imponência de um tempo onde os trens dominavam os meios de transporte. O telhado de telhas francesas era sustentado por uma estrutura metálica dando ao local uma aparência fantástica. De repente, chegaram perto da locomotiva alguns meninos e perguntaram o que eu fazia ali. Eu disse que estava conhecendo aquela bela estação de trens escondida da cidade. Um dos meninos perguntou se eu já havia passeado naquela locomotiva. Eu imaginei que a pergunta aconteceu por eu ser um adulto e, assim, poderia algum dia ter passeado nela. Eu respondi que naquela locomotiva não, mas eu era assíduo frequentador de trens que passavam por baixo da terra, os chamados metrôs. O maior deles me disse que a locomotiva que lá estava era conhecida como Maria e que de vez em quando fazia viagens. Eu perguntei em tom de brincadeira se havia maquinista. Sim, o maquinista é Seu Tonho, ouvi como resposta. Perguntei se algum deles já havia passeado naquela máquina. Eles responderam que não, mas um velhinho chamado Seu Jorge embarcava na locomotiva nas noites de lua cheia e voltava ao amanhecer do dia seguinte. Aquela estória me deixou curioso. Quis saber onde morava a pessoa que passeava naquela velha locomotiva e fui levado a sua casa pela meninada e, assim, conheci Seu Jorge, que era um Senhor de idade avançada. No decorrer da conversa, Seu Jorge me informou que foi funcionário da linha férrea por muitos anos. Perguntei-lhe sobre o maquinista Seu Tonho. Soube que ele era o maquinista da locomotiva Maria e que desapareceu após o trem descarrilhar e avançar pelo terreno até parar na beira de um rio. Ele completou a descrição comentando que as buscas foram incansáveis, mas o condutor da locomotiva Maria nunca foi encontrado. Comentei o que os meninos disseram a respeito da saída da locomotiva nas noites de lua cheia. Seu Jorge, com um sorriso no rosto, revelou que naquelas noites Seu Tonho vinha cumprir a sua missão na terra de levar pessoas aos seus destinos. Perguntei se ele viajava na antiga locomotiva Maria nas noites de lua cheia. A resposta foi uma pergunta se eu acreditava naquilo. Claro que sim, disse-lhe sem cerimônia. Na lua cheia seguinte fui à antiga estação de trens e fiquei esperando o que acontecia. A lua cheia apareceu e sua luminosidade adentrou o interior do galpão e chegou à antiga locomotiva que foi se tornando nova e sua cor externa escura passou a brilhar. O motor a vapor começou a funcionar e uma fumaça branca começou a sair da sua chaminé. As rodas motrizes começaram a se mover e a locomotiva foi ao centro da rotunda que se deslocou uns quarenta e cinco graus até alinhar com os trilhos que saiam para a rua. Ao ver a locomotiva partindo corri até ficar ao lado da cabine quando fui surpreendido por Seu Jorge que me apanhou pelo braço e pude subir naquele compartimento. No seu interior também estava Seu Tonho que me deu as boas vindas. Aquela seria a última viagem da locomotiva Maria, anunciou Seu Tonho. Seria a missão de levar Seu Jorge para as terras do além. Fiquei observando a viagem e pude perceber a saída da antiga estação para trilhos do passado. O muro que encerrava os trilhos não existia mais. Assim, o passeio foi acontecendo. A primeira parte da viagem foi no interior da cidade, sendo percorrida a área portuária e depois uma rua onde havia muito movimento com bares, sorveterias, prédios suntuosos, casas e comércio. As pessoas paravam para ver a locomotiva Maria passar. Pude ver pessoas de uma época passada. Os homens usando paletós e as mulheres com roupas que chegavam aos joelhos. Depois a locomotiva subiu a Cidade Alta e passou a percorrer as ruas do centro. Depois desceu uma ladeira indo até a praia onde o trajeto foi de alguns quilômetros. A lua cheia somada a fraca iluminação da época criava um ambiente de uma beleza inigualável. Aquela situação de delírio me fez querer ir para minha casa. Naquele momento a locomotiva tomou o rumo do mar em um trilho que ia surgindo à medida que o trem se deslocava. O passeio pelo mar foi a parte mais fantasiosa daquele passeio. A locomotiva margeava a praia. Reconheci minha casa de praia e pedi parada. Em poucos minutos a maquina parou em frente a minha casa. Agradeci o passeio maravilhoso e me despedi dos companheiros de viagem. Desci da cabine e acenei para os dois. A locomotiva partiu em direção ao mar e desapareceu no horizonte. Acordei no dia seguinte e recordei do sonho fenomenal que tive na noite passada. Um dia numa exposição de um artista conhecido da cidade vi um quadro cujo motivo principal era uma locomotiva se deslocando na superfície do mar. A explicação para aquela pintura foi uma visão que o artista teve num passeio noturno pela praia. Um dia voltei a antiga estação de trens e soube da partida desta vida de Seu Jorge na noite do meu passeio na locomotiva Maria. Foi a última viagem como anunciou Seu Tonho.