O BONECO CHARLES

O BONECO CHARLES

 

De passagem pelo interior do estado, ouvi um carro de som passeando na cidade e anunciando o Circo Alvorada e suas atrações. Dentre essas, a presença de malabaristas, palhaços, mágicos e, o que me chamou mais a atenção, foi o incrível boneco falante chamado Charles Silva, e sua capacidade de comunicação com a plateia. Cheguei perto do carro de som e assisti o boneco fazendo magistralmente o anúncio do circo. Um ventríloquo segurava o boneco no colo e não demonstrava no seu rosto qualquer movimento de fala. Acenei com a mão em direção ao carro de som e fui correspondido por um adeus feito com as mãos do boneco. Resolvi ir assistir ao espetáculo circense motivado pelo ventríloquo, já que sou admirador de qualquer atividade feita com bonecos. O circo começava às quatro horas da tarde e um pouco antes cheguei lá. Primeiramente observei o interior do circo e sentei na parte alta de uma arquibancada de madeira que circundava o picadeiro. O show começou e assisti os mágicos e palhaços desempenharem brilhantemente os seus papeis, até a entrada no palco do ventríloquo João Nobre e seu boneco falante Charles Silva. O boneco logo conquistou o público contando estórias e narrando uma partida de futebol de forma maluca, contando gols feitos pelo goleiro, brigas entre jogadores e a torcida, gol feito pelo juiz que torcia por um dos times, e muito mais. O curioso é que o ventríloquo não parecia estar falando, pois, bocejava, fazia caretas e mantinha uma cara de tédio. O alto da apresentação foi a imitação de conhecidos apresentadores de televisão narrando as notícias do dia a dia. No final do show, o ventríloquo deixou o boneco cair no chão, que começou a falar palavrões e a reclamar da falta de cuidado de João Nobre, que imediatamente apanhou Charles do chão, colocou a mão na sua boca e saiu correndo do picadeiro. Em seguida foram ouvidas estrondosas palmas. Foi muito bom, pensei alto. No início da noite fui jantar num dos poucos restaurantes da cidade. Para minha surpresa, lá estava o ventríloquo João. Fui até a sua mesa e lhe parabenizei pelo belo show. Ele agradeceu e me confessou que aquela foi a sua última apresentação, pois, iria se dedicar a outra atividade, além de ressaltar que a relação com o boneco Charles não estava boa. Um pouco encabulado, perguntei qual seria o problema com um simples boneco. Tive como resposta que este estava querendo alçar voos maiores, o circo estava ficando muito pequeno para o seu enorme talento. Por fim me disse que iria guardar o boneco num armário. Como sou fã de toda a arte feita com bonecos, pedi para ficar com ele. A resposta positiva foi imediata, porém com o pedido de ter notícias do boneco e ainda, poder visitá-lo frequentemente, e reavê-lo a qualquer momento. Aceitei as exigências e no dia seguinte recebi o boneco dentro de uma mala de viagem. Na volta para minha cidade levei a mala no banco traseiro. Tive a impressão na viagem de volta de ter ouvido vindo de dentro da mala um noticiário radiofônico. Na minha casa tirei o boneco Charles da mala e o coloquei em cima de uma cadeira no escritório. Não sei explicar como o boneco conseguiu se deslocar, mas ao chegar em casa no início da noite, percebi o boneco sentado no sofá da sala vendo televisão na hora de um jornal televisivo. Peguei o boneco Charles no colo e este me pediu para ser filmado enquanto narrasse notícias atualizadas. Estranhei a fala e o pedido do boneco, todavia, para minha surpresa, o boneco Charles ganhou vida da mesma forma que aconteceu com alguns bonecos feitos por um relojoeiro ancorado num livro de contos fantásticos. Naturalmente, filmei com o celular o boneco Charles Silva e pude perceber um excelente desempenho. Nos dias seguintes o boneco sumia durante o dia e aparecia na cadeira do escritório de noite. Fiz algumas perguntas ao boneco e não tive respostas. Para a minha surpresa, vi o boneco Charles Silva na forma animada apresentando um jornal local. Como sabia da sua condição, percebi alguns movimentos no seu rosto próprios de um boneco movimentado por um ventríloquo, no entanto, nada prejudicava a sua imagem.