FOTÓGRAFO DE SONHOS

Passeando pelas ruas do Bairro de San Telmo em Buenos Aires, deparei-me com uma loja de máquinas fotográficas antigas. Senti-me atraído por aquela loja e entrei num universo da fotografia analógica. As máquinas eram antigas e tinham tamanhos e formatos diferentes. Pude ver uma de madeira fabricada no final do século XIX, uma raridade, segundo o vendedor de nome Pablo, um sujeito beirando os quarenta anos de bigodes e usando um par de óculos redondo. Os outros modelos que me chamaram a atenção foram um de aspecto sanfonado fabricado nos anos de 1920 do século XX, uma outra parecendo uma maleta, máquinas em formato prismático dos anos cinquenta e sessenta do mesmo século e ainda as portáteis que se estenderam até o início do século XXI. Uma delas me chamou especial atenção. Ela tinha um formato triangular com uma objetiva na sua frente e se chamava captora de sonhos. Perguntei sobre aquele equipamento e Pablo me disse que se tratava de uma máquina rara e foi criada por um tio seu e tinha a finalidade de fotografar sonhos. Eu perguntei se aquilo era real. A resposta foi que o princípio daquele equipamento era o mesmo de uma máquina fotográfica, ou seja, um filme a ser posteriormente revelado. A captora de sonhos seria usada por alguém acionando o obturador no momento do sono de outrem. Questionei se havia fotos de sonhos. Pablo me mostrou algumas fotografias em preto e branco mostrando os supostos sonhos. As imagens apresentavam aspecto confuso com vultos humanos, paisagens de montanhas, nuvens, castelos, barcos, praias, etc. Aquela máquina de finalidade inusitada me conquistou e resolvi comprá-la, apesar do preço estar acima da média. Pablo pediu que eu lhe enviasse alguma informação do uso daquele aparelho, e ainda comentou que nunca teve coragem de testá-lo, por entender que não entendia os reais objetivos de fotografar os sonhos. Perguntei se o seu tio estava vivo e soube que ele havia desaparecido após realizar uma viagem mística a um local indicado numa das fotografias dos sonhos. Perguntei se eu podia ficar com as fotografias dos sonhos a mim apresentadas. Prontamente, Pablo me entregou um pacote com várias delas, comentando que era um alívio se livrar daquele material sem finalidade alguma para a sua vida. Levei o pacote para a minha casa de praia e resolvi que iria testar aquele equipamento. Por uns dias imaginei qual o mecanismo a ser usado para registrar um sonho. Na verdade, não podia explicar o funcionamento daquele artefato insólito. Afinal, era uma ideia de um pesquisador que não deixou o projeto do seu feito. O primeiro problema foi como acionar a máquina quando eu estivesse dormindo. Talvez fosse melhor eu fotografar alguém. No entanto, um arroubo de racionalidade me fez entender que a aquela máquina não poderia fotografar sonhos, e, depois disso resolvi colocá-la  na minha estante como enfeite. Analisei as fotos e passei pouco a pouco a me convencer que aquelas eram registros de sonhos. As imagens apresentavam figuras sem um razoável senso de realidade. Para a minha surpresa, num dia recebi uma visita inesperada. Era o tio de Pablo que chegou a minha casa. Ele se chamava Adolfo, era um senhor de mais de sessenta anos, e disse que queria a máquina e as fotos de volta. Ressaltou, ainda, que pagaria um bom preço. Não relutei na possibilidade da devolução, apenas pedi que fosse fotografado naquela noite. Escutei que seria um prazer fazer as fotografias e que as melhores tomadas seriam aquelas feitas perto do despertar. Após revelar as fotos pude ver um esboço do que sonhei na noite passada. Dessa forma, pude vislumbrar figuras borradas lembrando castelos, pássaros, cavalos, fadas e outras figuras indecifráveis. Satisfeito com a ideia, devolvi o equipamento e as fotos ao Senhor Adolfo. Alguns dias depois liguei para Pablo para contar a visita do seu tio. Dessa forma, fiquei sabendo que seu tio estudava a interação do sonhador com o sonho, e, está pensando em um artefato que permita adentrar-se a este universo irreal e intangível feito de imaginação e fantasia.