A GRAÚNA DE TIA CANDU

Desde menino que admiro os pássaros da minha terra. Tive uma predileção especial por periquitos australianos que eram criados por uma tia numa localidade rural chamada Marinho. Também admirava os canários e uma ave belíssima chamada graúna. Essa última criada por esta tia que nutria por ela um cuidado especial. Ela contava que aquela ave tinha uma estória particular. A graúna era criada numa gaiola bem grande, especialmente preparada para ela, pois a bela ave tinha que se sentir bem ali, destacava minha tia. Era um pássaro encantador e estava sempre grunhindo. Suas penas eram de um preto brilhante lhe dando um aspecto de beleza e elegância. O engraçado é que ele parecia conversar com quem chegava perto e a elevação dos sons mudavam ao longo do desenrolar do contato. Minha tia chamada Candú mandava a gente não dar cabimento ao pássaro que resmungava aos quatro ventos. Eu uma vez disse que aquele pássaro deveria estar livre, mas minha tia dizia que era melhor ele estar ali do que solto. Na minha inocência de criança quis saber um pouco da estória daquela ave e o que ela tinha feito para estar presa numa gaiola. Minha tia resolveu me contar o caso daquele pássaro. Ela contou que uma graúna fêmea foi presa e colocada numa gaiola. O seu dono queria que ela cantasse, entretanto, a ave aprisionada não cantava nada. Um morador da fazenda disse que a graúna cega cantava lindamente, pois não saberia que estava presa. Assim foi feito. A pobre graúna teve seus olhos mutilados e mesmo assim não cantava. O dono decepcionado resolveu dar a sua liberdade. A graúna cega voou sem a visão, bateu numa árvore e morreu. O pássaro agora preso chamado pela tia Candu com o nome de teteco viu a sua fêmea morta e cega. Enfurecido teteco atacou o homem,  que aprisionou a sua fêmea e fez a maldade, bicando o seu rosto. Este assustado se livrou do ataque e entrou na casa. No dia seguinte ao sair de casa, Seu Bill foi novamente atacado  e saiu machucado. Dessa vez os ferimentos foram ao redor dos olhos. Seu Bill juntou uma tropa e saiu a caça do pássaro violento. No caminho ele foi novamente atacado. Num voo praticamente vertical teteco foi atingido por resquícios de chumbo da espingarda de soca utilizada naquele tiro. Teteto ferido voou até o quintal da casa de tia Candu e ali caiu desfalecido. Após a missa de domingo, Seu Bill contou aos presentes a respeito do pássaro que o atacou e do tiro que ele havia levado. Minha tia achou a estória curiosa e quando chegou a casa e foi ao quintal buscar uma roupa no varal se deparou com a graúna ensanguentada caída no terreiro. O pássaro foi imediatamente tratado, teve o ferimento lavado e foi colocado numa caixa de papelão com feno no seu fundo. Diariamente o pássaro ferido recebia água e alimentos como milho e alpiste. Em alguns dias a graúna estava curada, mas o interessante é que ela não quis voar e passou a acompanhar minha tia por toda a casa gorjeando um resmungo como se quisesse contar uma estória. Minha tia disse que certa vez lançou com as mãos a graúna ao ar que alçou voou e voltou a casa após algumas horas. Alguns dias depois foi comentado que uma graúna pousou no parapeito do quarto de Seu Bill e grunhiu um som que foi entendido como a palavra maldito. A ave foi expulsa quando foi lançado em sua direção um sapato que raspou as suas asas. Tia Candu finalmente ligou os fatos e entendeu que teteco era a ave que atacou o amigo fazendeiro. Houve muitas escapadas de teteco sempre coincidindo com idas a fazenda de Seu Bill e lá ele aprontava alguma traquinagem. Dentre as estórias imputadas a ave, foi contada a tentativa de botar fogo na casa com uma pequena tora de madeira em brasas, roubada de um fogão a lenha, lançada por uma ave preta na sala causando um pequeno incêndio nos móveis de madeira. Uma queda da escada sofrida por Seu Bill após ser atacado pela ave. Um ataque aos animais transportados numa carroceria de camionete causando um alvoroço que quase põe os animais para fora do carro, e o ultimo ato foi a destruição das roseiras do jardim da fazenda. Tia candu resolveu colocar teteco de vez numa gaiola e os acontecimentos estranhos relacionados a ave não aconteceram mais.  A gaiola ficava na parte interna da casa de Tia Candu que escondia aquela ave do conhecimento de qualquer pessoa que viesse a contar a sua existência a seu Bill. Essa estória da graúna está presente nas minhas memórias e até hoje gostaria de saber da sua veracidade. Será que esta ave foi tão fantástica a ponto de aprontar tudo o que contam, segundo minha tia sim.