A ILUSÃO DO TEMPO

Um dia estava pensativo, olhando o mar e refletindo sobre a condição humana, buscando respostas para a minha inquietação, e, não as encontrava. Uma pescaria, talvez desanuviasse minhas angústias. Precisava juntar meu material de pesca, embora soubesse que a pescaria seria inútil, pois, minhas experiências me levaram a pescar baiacus e a perder as iscas. O material estava no quarto de despejo, que por sinal, não o abria há muito tempo. Deveria haver muita bagunça, pensava em voz alta. Abri a porta e me deparei com um monte de poeira, latas de tinta, tapetes, ferramentas e um velho quadro que eu mesmo pintei há muito tempo, produto de uma fase em que achei que poderia pintar alguma coisa boa, já que trabalhava bem com desenho técnico, o que seria uma vantagem, era o que eu pensava na época e que depois percebi que não servia de nada para aquele intento. Os primeiros temas das minhas pinturas foram figuras geométricas, que não faziam muito sentido, nem apresentavam uma estética que pudesse me destacar como pintor. Depois, pintei figuras humanas, como trabalhadores e pessoas na praia ou na montanha, muito ruim, era o que eu achava. Depois passei a fase da sensualidade, pintava mulheres com seios fartos e muitas curvas. Um dia olhando para todas as minhas obras, resolvi dá-las um fim, e, as joguei no lixo. Aquele ato me deu uma sensação de liberdade, eu estava tirando um peso das minhas costas. O meu material de pintura era cera e pastel. A pintura com tintas seria numa etapa posterior, a qual nunca alcancei. Do material que pintei, guardei apenas um quadro que me deparei há algum tempo atrás, estando ele emoldurado e protegido com um vidro. Confesso que nunca pendurei aquele quadro. Não sei bem qual o principal motivo, um deles foi a minha forte autocrítica, e, o outro, talvez, um sentimento de temor por expor algo extraído do fundo da minha alma. Peguei o quadro e mudei os planos da pescaria em direção à escolha de um lugar para pendurá-lo na casa. Depois de muito pensar, escolhi um espaço entre outros quadros na sala de estar e ali o instalei. De uma poltrona podia contemplar a minha obra de arte sobrevivente e reparar os seus detalhes. O tema era o mar, nuvens, rochas, um barquinho ao fundo e um estranho redemoinho no centro da pintura, que parecia movimentar-se. Certamente uma ilusão de ótica, ou um esforço da minha mente para criar aquela fantasia. Passei a admirar o redemoinho, que foi aos poucos aumentando de tamanho e ocupou todo o quadro, depois passou a sair do quadro e se dirigiu até a minha pessoa, absorvendo-me completamente até desaparecer. Na mesma poltrona, observei que as cores da pintura da parede mudaram, estavam de cor aperolada, quando era branco gelo, sai até a varanda e vi um prédio ao lado da minha casa. Num gesto impensado fui ao meu quarto e me deparei com a rede de dormir ocupada, fui olhar quem lá estava e me reconheci dormindo. Desesperado, corri até a sala pensando no quadro até ser engolido por um redemoinho que me deixou de volta ao momento em que admirava minha obra de arte. Sem acreditar no que aconteceu achei melhor destruir o objeto que me levou a este delírio, ou realidade, não sei. Retirei a pintura da moldura, a princípio pensando em destruí-la, depois, resolvi colocá-la numa garrafa e lançá-la ao mar. O que fiz pouco tempo depois, a exemplo de muitas estórias, filmes, lendas, etc. Dentro da garrafa coloquei um bilhete contando o que tinha se passado comigo, e, ainda pedi que alguém que ao encontrar o quadro, se passar por alguma experiência semelhante, que escreva contando se aconteceu algo estranho motivado pela pintura. Afinal, temos o direito de fazer algo fora do normal, uma vez na vida.  Certamente, não posso garantir este fato como realidade, mas, uma boa experiência. Talvez seja a hora de por em prática o que planejo por muito tempo, voltar ao passado através do objeto que guardo dentro de um livro. Ele será meu condutor para uma viagem ao tempo, desta vez planejada. Fica para depois.